"Dois anos de investigações levaram à prisão de um jovem de 22 anos envolvido no misterioso caso de matança e esquartejamento de meninos, que deixou em pânico população em vários bairros de Houston Tale, informou nesta segunda-feira a polícia local.
As autoridades concluíram que Prince German foi o responsável pela morte de 32 garotos entre 22 de maio e 18 de Junho de 1986, muitos dos quais ele mutilou e abriu pela metade, deixando expostos nos jardins de suas casas.
Prince, sobre quem pesa uma pena de morte, deverá ser submetido a tratamento psiquiátrico até a execução.
O prefeito do condado H-Tale, Joseph Alvarez Collor, destacou o trabalho dos investigadores, que rastrearam Prince em sites de relacionamento onde eram divulgadas fotos dos crimes."
E é por isso que eu estou aqui. Há três anos não canso de ler a mesma notícia, palavra por palavra. Erro por erro. Vida por Vida.
A prisão já virou rotina pra mim.
A fama que obtive é uma espada cortando pros dois lados. Não fiz inimigos, nem amigos... Tenho uma cela, um quarto, só meu.
Na verdade têm sido os melhores anos da minha vida. Eu leio bastante, aprendo muito e me exercito. Nunca estive tão em forma.
Mas o meu tempo está acabando.
Encontraram aquele tal de Óliver, o guri sobreviveu, multilado, e me identificou.
Eu nunca tinha visto o guri antes.
Eu tava parado em casa e de repente a polícia derruba a porta e me põe de bruços no chão.
Comemoram... Aqueles safados comemoraram ainda. Eu só estava levando uma vida normal.
A idéia já entrou na minha cabeça, às vezes até eu duvido da minha inocência... Esse lugar corrompe a mais pura alma.
-Hey, Prince, como anda? - Jeromy é um cara legal, guarda da minha cela, a gente sempre conversa. Ele me fala da família, das três filhas... É um daqueles caras legais que ninguém olha, sempre sorrindo. O cara é tão normalmente legal que passa despercebido.
Na verdade cheguei a fazer certa amizade com os guardas daqui, conversas bobas, mas é o único contato humano que eu tenho.
Duas semanas depois eu tive uma audiência com o juiz. O convenci a me deixar escolher como morrer...
- Quero Voar... Quero ser livre uma vez antes de morrer, quero aproveitar a vida. Quero que me escutem antes de morrer. Gostaria de pular de uma encosta, com pessoas ao redor. Pessoas que possam ver como a vida pode ser irônica.

O juiz achou um pouco estranho, seria crueldade
negar o pedido de um cadáver... Seria adorável
para ele, Garzo Pinochet, o maior filha da mãe que já conheci.
Não sei ao certo se foi a escrivã bonitinha que ria tímida ao encontrar o olhar do velho juiz, ou se ele não teria nada a perder mesmo, mas Garzo acaba aceitando o meu pedido.
-Tanto faz. - Definitivamente não parecia "tanto fazer". Talvez tenha sido um puro caso de sorte, vai ver peguei Garzo num bom dia. Talvez aquela papa gigante, a cara arredondada que o fazem
parecer um leão marinho aposentado e muito surrado, precisem de atos de bondade pra ganhar uma funcionária. Talvez fosse a primeira vez que não precisasse pagar pra ter alguma coisa de
uma mulher, aquele gordo miserável.
-Soube que conseguiste um favor do Garzón - Jeromy falou rindo, gostavam de satirizar o nome do velhote, cada hora chamavam de uma coisa diferente, "Ganzo" ou coisas do gênero. Mesmo, na maioria das vezes, o assunto envolvendo a minha vida (ou a descontinuidade dela), dava um tom mais descontraído à conversa.
-Pois é, pelo menos vou poder morrer como quero - falei tentando parecer não estar abalado.
-Cara, pra ser sincero eu acredito que tu és inocente. Na verdade dá de ver na tua cara. Como isso foi acontecer com um escritor?
-Escritor fracassado, por favor. Foi até bom, pelo menos agora tenho o que comer. Esse ambiente nunca me estimulou a escrever, mas li muito.
Na verdade eu só escrevia por não ter nada o que fazer, uma ou duas editoras já tentaram vender alguma coisa, mas nunca fiz sucesso. Escrevia também por não ter família ou amigos, eu meio que conversava com o papel. Parecia ser normal até eu pensar sobre o assunto.
-Acho que alguém deve ter armado pra ti... - Explicitou Jeromy.
Na verdade eu não acho nada, não sei se foi uma infeliz casualidade. No fundo até acho que mereça isso. Como já falei antes a cadeia tem sido muito proveitosa, eu não tinha muito mais o que ganhar lá fora. Na verdade tinha muito o que perder.
...
O dia da execução então. Caía aquelas chuvas torrenciais de verão lá fora, chuva daquelas que dura duas ou três horas, mas parece que o mundo acabou nesse meio tempo. Jeromy aparentava estar com sono, quieto... Era cedo, mas na verdade acho que ele estava disfarçando uma certa melancolia.
-E o que vai ser o almoço então? - Perguntou tentando esboçar um sorriso.
-Polenta frita! - Falei com um sorriso largo no rosto. Fazia anos que eu não comia polenta frita. Era meu prato favorito na infância. É incrível como uma simples polenta frita pode salvar o dia de um homem. Pena que é só o dia...
O refeitório parecia mais silencioso do que o normal. Não que normalmente não o fosse, já que eu sempre comia sozinho, mas estava especialmente silencioso. Da rua podia sentir o cheiro do barro molhado e o barulho de carros oficiais passando. A chuva havia parado e o sol brilhava forte, sendo coberto por nuvens de tempos em tempos.
Foi a melhor refeição que tive em anos. Na saída do presídio Jeromy estava ao lado do furgão
visivelmente fingindo carregar algumas caixas.
-Ah, que coincidência, este é seu furgão então... Boa sorte, amigo. - Estendeu a mão com um
sorriso fraco no rosto. Foi um aperto de mão forte, valeu como um abraço. E mesmo tendo durado só alguns segundos pareceu ter levado quase uma hora.
Acho que eu estava tendo sorte mais uma vez, talvez seja o equilíbrio da vida, a terra parecia
estar girando com menos força hoje. Tudo levava horas. Não tive coragem de falar nada, não podia esboçar o menor sinal de fraqueza, mas acredito que tive êxito ao retrucar um forte sorriso.
Entrei no furgão, ainda pude ver pela grade Jeromy fingindo carregar mais algumas caixas enquanto olhava na minha direção. Bom rapaz Jeromy. Espero que tenha muita sorte na vida... Bom amigo...
Depois do que pareceu ser horas de viagem, ao som de "Sinead O'Connor - Nothing Compares to You" o furgão parou. Tenho que admitir que não havia música pior para a ocasião. Muito melhor
seria viajar ao som de The Beatles ou qualquer coisa mais dançante. Não reclamei, não quis abusar da sorte, tudo estava dando tão certo hoje.

A porta fez um estrondo metálico e abriu com força, dois guardas esperavam do lado de fora. Saí, o sol me cegou por um momento. Logo pude ver uma bela paisagem, era um lugar lindo, o chão ainda estava molhado.
Muitas pessoas estavam na volta e vários outros furgões parados.
Furgões de emissoras de TV, todas, provavelmente, dando a notícia de que o terrível psicopata seria finalmente executado.
Os guardas me guiaram até perto da encosta, era um grande penhasco, olhei para trás por um momento. Pude ver Garzo com um largo sorriso que o fazia parecer uma abóbora de Halloween muito mal decorada. Achei graça da situação, quem diria que Garzo poderia me fazer rir nesse dia?
Olhei para trás, era hora do "discurso".
Haviam microfones à minha volta e muitos abutres segurando-os.
-Senhor German, o senhor é inocente? - Perguntou um dos abutres.
Lembrei do meu pai nas reuniões com os amigos, onde ele batia no copo, levantava e fazia um barulho estranho com a garganta. Nunca entendi o porquê daquele barulho, mas achei que seria apropriado fazê-lo agora.
-Isso importa agora? Posso ser culpado. Não me queixaria disso. Aprendi muitas coisas nesses últimos anos. Valeram a pena, quer dizer, espero que tenham valido. Ser inocente agora seria um disperdício. - Falei com o máximo de consistência na voz que consegui, e aparentemente alcancei meu objetivo.
Os guardas foram afastando todos da volta, um deles soltou as minhas algemas, até que finalmente fiquei praticamente sozinho em um raio relativamente grande. Cheguei à beira da
encosta, olhei para baixo, era realmente alta.
Estendi meus braços, senti a brisa no rosto, era agradável.
Inclinei-me. Tudo parecia tão lento, o tempo andava preguiçoso, os movimentos rangiam, os sons eram altos e insignificantes.
O vento aumentou a intensidade, meu coração acelerou.
Eu estava voando, eu estava livre...
"Nesta segunda-feira, dia 8, foi executado o Serial Killer, Prince German, acusado de matar 32 garotos no condado de H-Tale. German escolheu morrer se jogando de um penhasco de 200 metros que fica nos arredores do condado. Repórteres estavam lá para cobrir a execução e as imagens foram passadas em toda a rede nacional.As autoridades alegam não estar poupando esforços para encontrar o corpo do executado."
"Sexta-Feira passada, dia 13, foi noticiado mais um caso de desaparecimento, uma menina de 12 anos sumiu no bairro Três Maçãs. É o terceiro caso de desaparecimento em seis dias... As autoridades não fizeram declarações sobre o assunto."